Da infância entre a vida ribeirinha e a floresta à construção de uma trajetória dedicada à educação e às artes visuais, artista transforma memórias, ancestralidade e sentimentos em grandes telas
Antes de existir Viva Lacerda, existia Vivalda. Uma menina nascida em 25 de junho de
1985, no interior de Breves, no Pará, que aprendeu muito cedo a observar o mundo com
uma sensibilidade particular. Ainda bebê, mudou-se com a família para a cidade de
Breves e, pouco tempo depois, para Portel. Foi ali, em meio à floresta, aos rios e à vida
simples, que começou a ser construída a artista que hoje encontra nas cores uma forma
de contar histórias.
A família morava em uma casa cercada pela mata, distante da vila de Portel, onde o pai
havia conseguido trabalho em uma serraria. Para Vivalda, aquele lugar foi mais do que
uma infância: foi uma imersão na essência amazônica.
A alimentação vinha da caça, da pesca e da coleta de frutos, especialmente o açaí. O
contato cotidiano com a natureza era absoluto. Como o acesso à escola era difícil, a mãe
assumia em casa o papel de ensinar. Enquanto isso, Vivalda desenhava, pintava e
aprendia artesanato.
Foi também em Portel que aprendeu a nadar. No fim das tardes, sentava-se com a
família à beira do trapiche para observar os botos que apareciam na baía. São
lembranças que permanecem vivas e que, décadas depois, parecem encontrar lugar nas
telas da artista.
“Eu vivia a essência mesmo do que é estar dentro da Amazônia”, recorda.
Em 1994, a família chegou ao Amapá. Embora paraense de nascimento, Viva Lacerda
construiu aqui a maior parte de sua história e passou a considerar o estado como sua
casa.
Foi no Amapá que começou efetivamente sua vida escolar. Mas a formação de Vivalda
não aconteceu apenas dentro da escola. A igreja teve papel importante em sua infância e
adolescência. Cantava em corais, regia crianças e adolescentes e desenvolvia, desde
cedo, uma forte capacidade de liderança.
Nos intervalos entre a escola e a igreja, frequentava a Casa da Hospitalidade, onde
aprendeu diferentes técnicas de artesanato, como crochê e confecção de tapetes. A
criatividade, portanto, nunca esteve distante de sua vida.


Uma menina que precisou trabalhar cedo
A trajetória de Viva também é marcada pelo trabalho.
Aos 14 anos, começou a vender sapatos em uma feira de Santana conhecida como
“Mete a Mão”. Aos 16, passou a trabalhar em uma padaria, na região portuária. Ia de
bicicleta, trabalhava durante o dia e estudava à tarde. Mais tarde, passou a trabalhar
durante o dia e estudar à noite.
Era conhecida como a “padeirinha da área portuária”.
Essa rotina exigia esforço, disciplina e uma capacidade de insistir nos próprios sonhos
que permaneceria presente em toda a sua trajetória


Aos 19 anos, casou-se, concluiu o ensino médio e ingressou, em 2005, na Universidade
Federal do Amapá (Unifap), no curso de Artes. Foi um momento decisivo.
Na universidade, a paixão pela arte, que já existia desde a infância, ganhou dimensão
profissional. Mesmo grávida, Vivalda continuou os estudos. Chegou à universidade
esperando seu primeiro filho, Matheus, hoje com 19 anos e estudante de História.
Depois da graduação, trabalhou na Fundação Bradesco, no Sesc e na Ilha de Santana,
sempre mantendo a arte e a educação como fios condutores de sua caminhada.
Em 2013, conquistou uma das realizações que mais desejava: foi aprovada em concurso
público para professora da rede estadual de ensino. Desde 2009, atua na educação
pública e privada, com formação em Licenciatura Plena em Artes Visuais e
especialização em Metodologia do Ensino de Artes.

Quando a sala de aula virou sua tela
Ser professora nunca foi apenas uma profissão para Viva Lacerda. Foi também uma
maneira de aproximar pessoas da arte.
Em suas aulas, a pintura sempre teve espaço. Ela acredita na experiência de fazer,
experimentar e criar como instrumento de transformação.
Um dos exemplos dessa abordagem aconteceu na Ilha de Santana, onde desenvolveu
uma atividade de releitura da Mona Lisa. Em vez de simplesmente reproduzir a obra de
Leonardo da Vinci, as alunas tiveram liberdade para criar suas próprias versões.
O resultado revelou algo que ultrapassava a técnica: muitas meninas colocaram seus
próprios rostos nas personagens.



Era a arte deixando de ser apenas uma imagem conhecida para se transformar em
identidade.
Esse desejo de tirar a arte dos limites da sala de aula tornou-se, posteriormente, um dos
grandes propósitos de Viva.
Ela queria que suas obras alcançassem outros espaços, outras pessoas e outras histórias.
E esse sonho começou a ganhar forma.
A mulher por trás das telas
A sensibilidade que aparece em suas pinturas também está profundamente ligada à sua
própria história.
Viva se define como uma criança muito emotiva. Conta que chorava com facilidade,
guardava pequenas pedras, tinha apego às suas coisas e sentia tudo de maneira intensa.
Hoje, olhando para sua trajetória, essa característica parece menos uma fragilidade e
mais uma das fontes de sua criação.
Sua arte nasce justamente desse lugar onde sentimento e memória se encontram.

Aos 32 anos, nasceu seu segundo filho, Nicolas. Durante esse período, descobriu que
ele é autista. Desde então, a maternidade passou a ocupar um lugar ainda mais central
em sua vida.
Entre o trabalho, a produção artística e os cuidados com o filho, Viva encontrou novos
desafios, mas também novas formas de enxergar o mundo.
Sua família permanece como uma de suas principais bases. Ao lado dos filhos, dos
irmãos e das pessoas que a apoiam, construiu uma rede de afeto que também alimenta
sua produção artística.
Entre essas pessoas está Junior Coutinho, a quem Viva chama carinhosamente de seu
“curador”.
Ele se tornou um dos grandes incentivadores de sua pintura, ajudando-a a manter a
produção mesmo nos momentos em que o cotidiano pesa.
Ao lado dele, outro nome ocupa um lugar fundamental em sua história: o pai, Vivaldo
Araújo da Silva, que, além de lhe transmitir o próprio nome, tornou-se uma referência
afetiva e uma das bases de sua trajetória artística.
A Amazônia que vive dentro dela
Viva Lacerda transita pelo figurativo, expressionismo e surrealismo. Suas telas de
grandes dimensões são marcadas por cores vibrantes, personagens femininas e
elementos que dialogam com a identidade amazônica.
Mas suas pinturas não parecem interessadas apenas em representar a Amazônia.
Elas procuram senti-la.
A floresta da infância, os rios de Portel, os botos vistos ao entardecer, a cultura, as
mulheres, as memórias e as experiências pessoais se misturam em uma produção que
transforma lembranças em imagens.
Sua obra também se volta para a ancestralidade e para a força de mulheres negras,
indígenas e ribeirinhas.
É nesse encontro entre o individual e o coletivo que sua pintura ganha força.
“Olhares da Alma”
Essa sensibilidade está no centro da exposição individual “Olhares da Alma”, que
reuniu 13 pinturas no Espaço Cultural Dr. Phelippe Daou, em Macapá.
A mostra apresenta mulheres como protagonistas e propõe um olhar sobre identidades,
ancestralidade e força.








A curadoria é assinada pela artista plástica Graça Andritson, parceira importante na
divulgação e projeção do trabalho de Viva.
A exposição representa também uma espécie de síntese de sua trajetória: a menina que
aprendeu artesanato, a adolescente que trabalhou para ajudar a construir sua própria
vida, a professora que levou a pintura para dentro das escolas, a mãe que aprendeu a
enxergar o mundo por diferentes perspectivas e a artista que decidiu transformar tudo
isso em arte.
Viva também integrou a exposição coletiva “Amazônia em Traços”, que reuniu mais
de 60 artistas locais em uma programação realizada em Macapá e Santana. Participou
ainda de exposições no Instituto Federal do Amapá (Ifap) e do projeto Diversidade
Cultural, realizado na praça do Fórum, em Santana.


Sua produção também alcança ações sociais. Entre elas está a doação de obras para
instituições como o Lar Betânia, levando a arte para além do circuito tradicional de
exposições.
Uma artista que ainda está caminhando
O nome Viva Lacerda começa a ganhar cada vez mais espaço no cenário das artes
visuais amapaenses, mas sua história está longe de ser apenas uma história de
reconhecimento.
É, sobretudo, uma história de persistência.
A menina que viveu no meio da floresta sem acesso regular à escola tornou-se
professora. A adolescente que vendeu sapatos e trabalhou em uma padaria tornou-se
artista. A jovem que entrou na universidade grávida concluiu sua formação. A
profissional que encontrou na direção escolar um dos períodos mais difíceis da carreira
reencontrou na pintura aquilo que realmente amava.
E a mulher que aprendeu, desde criança, a sentir tudo intensamente transformou essa
intensidade em linguagem.

Talvez seja justamente por isso que suas telas tenham esse caráter tão marcante.
Viva não pinta apenas aquilo que vê.
Pinta aquilo que viveu.
Pinta aquilo que sentiu.
Pinta as mulheres que reconhece, a floresta que carrega na memória, a ancestralidade
que atravessa sua identidade e os afetos que sustentaram sua caminhada.
Sua arte é, em muitos sentidos, uma forma de memória.
E talvez o nome da exposição não pudesse ser mais preciso.
“Olhares da Alma” é também o olhar de uma mulher que aprendeu a enxergar o
mundo muito antes de aprender a colocá-lo em uma tela.
Por Tina Mota
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