Mestres do Saber: memória, trabalho e vida dos carpinteiros navais do Elesbão ganham as páginas de um livro

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Projeto desenvolvido pela UNIFAP valoriza a trajetória dos carpinteiros navais do Elesbão, aproxima universidade e comunidade e transforma experiências transmitidas por gerações em registro histórico

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FOTO LUZIA MOTA

Santana (AP) — Às margens do rio Amazonas, no Elesbão, em Santana, o som das ferramentas batendo na madeira faz parte da rotina. Ali, entre embarcações em construção, serragem, tábuas e histórias de uma vida inteira, trabalham homens que aprenderam a construir barcos observando, ouvindo e fazendo.

Esse conhecimento, passado muitas vezes de pai para filho, de mestre para aprendiz, ganhou novos caminhos por meio do projeto Mestres do Saber: os Carpinteiros Navais do Elesbão, desenvolvido com participação de pesquisadores e acadêmicos do curso de História da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).

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FOTO JERIEL LUZ

A iniciativa nasceu a partir do projeto Educação Patrimonial: História e Memória das Comunidades Ribeirinhas de Santana-AP. Mais do que pesquisar a construção artesanal de embarcações, o trabalho procurou conhecer as pessoas por trás desse ofício e ouvir as histórias de quem dedica boa parte da vida à carpintaria naval.

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No começo de tudo, os artistas Jeriel Luz e Luzia Mota participaram de uma exposição realizada em conjunto com a mostra sobre os trabalhos dos Mestres do Saber. O encontro marcou um momento importante de valorização da arte, da memória e dos saberes tradicionais.

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É justamente esse saber que o projeto buscou reconhecer.

Histórias que saíram dos estaleiros

A pesquisa começou a ganhar maior visibilidade em 2024, quando a UNIFAP recebeu a exposição “Mestres do Saber: os Carpinteiros Navais do Elesbão”, durante a 18ª Primavera dos Museus.

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Fotografias, vídeos, pinturas e objetos usados no trabalho ajudaram a aproximar o público de uma realidade conhecida por muitas comunidades ribeirinhas, mas que nem sempre recebe atenção fora delas. Na exposição, as embarcações deixaram de ser as únicas protagonistas. O olhar se voltou também para as mãos que cortam, medem, encaixam e transformam a madeira. Por trás de cada barco existe uma história. Existem horas de trabalho, conhecimentos acumulados, dificuldades enfrentadas e experiências que acompanham esses profissionais por décadas. A exposição também ajudou a ampliar a discussão sobre a importância dos carpinteiros navais para a vida na Amazônia. Em uma região em que os rios funcionam como verdadeiras estradas, as embarcações fazem parte da rotina de milhares de pessoas. Elas transportam famílias, trabalhadores, alimentos e mercadorias entre diferentes comunidades. Mesmo assim, quem constrói esses barcos artesanalmente muitas vezes permanece longe dos holofotes.

O projeto contribuiu para mudar um pouco essa realidade. As histórias dos carpinteiros começaram a circular fora da comunidade, chegaram à universidade e também conquistaram espaço na imprensa amapaense.

Quando a memória vira livro

No dia 22 de agosto de 2026, foi lançado o livro “Mestres do Saber: os Carpinteiros Navais do Elesbão”.

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FOTOS JERIEL LUZ
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O lançamento teve um significado especial porque aconteceu no próprio Elesbão de Baixo, às margens do Amazonas, lugar onde vivem e trabalham os personagens que ajudaram a construir essa história.

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FOTOS JERIEL LUZ Dra Elke Daniela Rocha Nunes e Familia

Foi como devolver à comunidade, agora em forma de livro, parte das memórias que ela mesma compartilhou.

A obra é de autoria das pesquisadoras Ana Cristina Rocha Silva, Elke Daniela Rocha Nunes e Alanna Aquemi Santiago Saito. Também participaram da produção de textos sobre os mestres e trabalhadores os acadêmicos de História Marcos Vinicius Morais da Silva, Raissa Martel Melo, Vitória Caroline Miranda Lima e Giovanna Gabrieli de Jesus Rodrigues.

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O livro reúne histórias, experiências e conhecimentos de trabalhadores ligados à construção artesanal de embarcações. Mais do que registrar técnicas, a publicação preserva lembranças. Cada relato ajuda a revelar como esse ofício foi sendo aprendido e transmitido ao longo do tempo, mostrando que a carpintaria naval também faz parte da história social e cultural do Amapá.

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FOTOS JERIEL LUZ Dra Ana Cristina Rocha Silva

Universidade fora da sala de aula

O projeto também mostra uma universidade que vai ao encontro da comunidade. Para os universitários do curso de História envolvidos na iniciativa, a experiência ultrapassa aquilo que é aprendido apenas dentro da sala de aula. O contato direto com os trabalhadores permite perceber que a história também está presente nas conversas, nos gestos, nas ferramentas antigas, nas lembranças e na maneira como cada pessoa conta a própria trajetória. Nesse processo, os carpinteiros deixam de ser apenas personagens pesquisados. Eles também se tornam professores. São homens que talvez nunca tenham atuado como docentes em uma universidade, mas que carregam conhecimentos construídos ao longo de toda uma vida.

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FOTO DE JERIEL LUZ

Conhecem a madeira pelo toque. Percebem detalhes de uma embarcação pelo olhar. Sabem que determinadas escolhas podem fazer diferença quando o barco estiver enfrentando as águas dos rios amazônicos. São conhecimentos que nasceram da prática e da experiência. É por isso que chamá-los de “Mestres do Saber” tem um significado tão forte.

Uma história que continua navegando

Preservar essas memórias é também reconhecer a importância de pessoas que ajudaram — e continuam ajudando — a construir parte da vida ribeirinha no Amapá. Os barcos produzidos no Elesbão não são apenas estruturas de madeira. Eles representam trabalho, deslocamento, sustento, encontro e conexão entre comunidades. Antes de cada embarcação tocar a água, porém, existe o trabalho silencioso de quem sabe transformar madeira em barco. É esse trabalhador que o projeto decidiu colocar no centro da história.

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Foto Jeriel Luz Elesbão Santana-Ap

Com o lançamento do livro, aquilo que durante muitos anos permaneceu guardado principalmente na memória e na experiência dos próprios carpinteiros passa a ter também um registro escrito. As páginas podem chegar às escolas, universidades, bibliotecas e às mãos de novas gerações. Mas talvez o maior valor da obra esteja justamente no lugar de onde tudo começou. No Elesbão, enquanto novos barcos continuam sendo construídos às margens do Amazonas, os mestres seguem trabalhando. Agora, parte do que aprenderam durante uma vida inteira também ganhou outro caminho para navegar: as páginas de um livro.

Por Luzia Mota

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