A ARTE E ANCESTRALIDADE INDÍGENA
DO CORAÇÃO DA AMAZÔNIA PARA AO MUNDO

Quando a arte nasce do encontro entre ancestralidade, espiritualidade e natureza, ela transcende o objeto e se transforma em mensagem. Débora Almeida é uma dessas artistas raras que fazem da própria trajetória uma ponte entre mundos. Mulher amapaense, filha da floresta e da cultura popular, Débora trilha um caminho sensível e profundo que une o cuidado com a vida, o amor pela Amazônia e o resgate da arte como cura.

Natural de Macapá, Débora Almeida carrega em sua bagagem mais do que conhecimento técnico ou títulos acadêmicos: ela traz o pulsar da floresta e o chamado de suas raízes. Sua trajetória começou em outro caminho — o da Medicina Veterinária — que exerceu com dedicação antes de embarcar para Portugal, onde viveu por 11 anos e passou por um processo de profunda transformação interior.
Na terra lusitana, Débora se debruçou sobre o estudo da alma. Formou-se em Programação Neurolinguística, Coaching Humanista, Reiki e Direitos Humanos, aprofundando-se também na temática da Interculturalidade. O olhar terapêutico que ela desenvolveu nesse período viria a somar ao talento artístico que carregava desde a juventude
O retorno à sua terra natal, em 2020, foi marcado por uma experiência espiritual que a reconectou com sua essência. E foi a partir desse reencontro consigo mesma que nasceu o Projeto Amazônia Viva – Pelos olhos de quem conhece e cuida, onde arte, ancestralidade e consciência ambiental se entrelaçam em peças de artesanato feitas à mão com minúcia, delicadeza e profundo respeito pela floresta



Cada criação de Débora conta uma história. Seja nas fibras naturais, nos pigmentos da terra, nos traços que homenageiam os povos indígenas ou nas formas que evocam animais e elementos da natureza amazônica, suas obras carregam um chamado: a necessidade urgente de preservar o que é sagrado — a vida em sua diversidade
Débora é uma guardiã de saberes. Sua arte de alta qualidade não apenas encanta pelo acabamento e estética, mas sobretudo pela intenção que carrega. Ela acredita na arte como um portal de cura, autoconhecimento e transformação coletiva. Acompanhe uma entrevista com Debora.
Débora, como foi o momento em que você percebeu que precisava unir arte, espiritualidade e a floresta no seu fazer artístico?
– logo no inicio do meu reencontro com a arte, eu fazia outros trabalhos ex: Arte do Lettering (desenhar letras criativas sem uso de computador, somente com as mãos) e foi durante esse período que eu senti o impulso/intuição de usar a arte para representar o legado dos meus antepassados e da nossa cultura indígena com o objetivo de relacionar essa herança com as questões referentes a nossa Amazônia e assim contribuir para a sua conservação e valorização.
O que mais te inspira na cultura indígena e de que forma elas influenciam diretamente o seu trabalho?
– o que mais me inspira é o respeito que eles têm com a Terra e com a Amazônia em todo seu contexto. Para eles a Natureza é um lugar sagrado que merece respeito, amor e valorização porque é ela que nos proporciona os recursos necessários á nossa subsistência. Eles nos ensinam como tirar proveito da Natureza sem agredi-la.
Fechar os olhos para isso é negar o legado que recebemos. Se pararmos para pensar melhor aprenderemos que toda matéria prima que utilizamos no nosso dia a dia vem da Natureza, desde da fabricação natural ou química dos remédios até a produção de moveis e por isso não tem como negar essa herança de amor que recebemos deles.
Como nasceu o Projeto Amazônia Viva e qual o impacto que você espera gerar com ele?
– o Projeto na verdade nasceu em São Paulo quando estava produzindo umas peças para participar da decoração de uma rua na cidade onde morava, quando de repente senti o desejo de criar elementos que homenageavam a nossa cultura indígena, a nossa Amazônia, os nossos ancestrais. A partir dai eu comecei a idealizar a produção de Cocares (cultura indígena) e aliar com as questões relacionadas a extinção dos animais. Na época produzi 24 peças que faziam alusão a vários animais em perigo de extinção. E foi assim que nasceu o Projeto Amazônia Viva – pelos olhos de quem conhece e cuida. Amazônia Viva para lembrar ao mundo que ela existe e que fazermos parte dela e que devemos, para o nosso bem e das futuras gerações, protegê-la e pelos olhos de quem conhece e cuida – para lembrar que são nossos irmãos indígenas que cuidam e protegem a nossa Floresta.



Que tipo de materiais e técnicas você utiliza nas suas criações artesanais?
– toda materia prima utilizada vem da natureza, nada é arrancado. Tudo é colhido do chão, tratado e usado na produção, alguns materiais como a corda de sisal e adquirida em lojas. A Técnica é Faber Emballage Macrame / mista onde uso sempre material sustentável como corda de sisal, palha e semente do açai, palha da bacaba, palha da costa, barbantes e outros
Que mensagem você deixaria para outras mulheres que desejam empreender artisticamente com propósito e conexão espiritual?
– Eu diria que precisamos antes de mais nada ter um olhar divino para os benefícios que a natureza nos proporciona e também entender a importância que nossos ancestrais têm em nossas vidas, porque foram eles que abriram o caminho com amor, suor e sangue e que é a Natureza que nos proporciona o nosso bem-estar. Então, minha mensagem não é só para as mulheres e sim para todo ser humano que busquem conexão com a sua ancestralidade e a natureza buscando conservar valores verdadeiros , procurando entender o ecocentrismo (é uma filosofia que busca a harmonia entre a humanidade e a natureza, valorizando a importância do meio ambiente e de todos os seres vivos) aprendendo a usar os recursos naturais de forma sustentável e ensinando a nova geração a importância da saúde do nosso planeta para a sobrevivência da humanidade. Se cada um fizer sua parte, teremos mais chances de dar continuidade a herança que recebemos dos nossos ancestrais.
Débora Almeida nos mostra que é possível fazer arte com alma, com raízes e com consciência. Em tempos de urgência climática e desconexão, ela surge como uma voz feminina que canta com as mãos, fala com o barro, reza com as cores e nos convida, com doçura e firmeza, a lembrar quem somos e de onde viemos. Com cada peça, ela costura o passado, cura o presente e semeia um futuro mais justo, bonito e vivo — como a Amazônia que pulsa em seu coração.
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